Portugal e Tailândia: 500 anos de uma relação improvável

Perguntam-me muitas vezes o que é que liga Portugal à Tailândia. E a resposta surpreende quase toda a gente: muito mais do que imaginas. Tudo começa em 1511, quando os portugueses foram os primeiros europeus a chegar ao Reino de Ayutthaya — o antigo Sião. Mais de 500 anos depois, essa história continua viva no dia a dia tailandês: nas palavras, nos doces, nas ruas de Banguecoque e até na comida.

Deixa-me contar-te as curiosidades que mais gosto de repetir.

O primeiro europeu a chegar à Tailândia era português

Em 1511, Afonso de Albuquerque conquistou Malaca e enviou Duarte Fernandes como emissário ao reino do Sião. Foi o primeiro contacto documentado de um europeu com a Tailândia. A missão correu tão bem que, em 1518, os dois reinos assinaram um Tratado de Amizade e Comércio — e os portugueses tornaram-se os comerciantes estrangeiros dominantes em Ayutthaya.

Fernão Mendes Pinto, o famoso aventureiro português, visitou o Sião na década de 1540 e foi o primeiro europeu a descrever Phuket em pormenor. Sobre Ayutthaya, deixou uma frase que me encanta: “viaja-se mais por água do que por terra” — uma cidade cheia de canais, à semelhança de Veneza.

O bairro português de Banguecoque ainda existe

Em 1538, o rei Chairacha recompensou 120 mercenários portugueses com terras junto ao rio Chao Phraya. Nasceu aí o Campos Portugues, o bairro português de Ayutthaya, que chegou a ter mais de 3.000 habitantes — a maior comunidade europeia do Sião.

Vestígios do bairro português de Ayutthaya
Vestígios do Campos Portugues em Ayutthaya — o bairro português do Sião.

Quando Ayutthaya caiu em 1767, a comunidade portuguesa reuniu-se em Banguecoque em três zonas, todas ainda hoje reconhecíveis:

  • Kudi Chin — o bairro histórico à volta da Igreja de Santa Cruz, no lado oeste do rio;
  • Talat Noi — junto à Igreja do Rosário;
  • Samsen — junto à Igreja da Imaculada Conceição.
Igreja de Santa Cruz, Kudi Chin — Banguecoque
A Igreja de Santa Cruz, no coração do bairro luso-tailandês de Kudi Chin.

O Kudi Chin é o meu favorito. É uma comunidade luso-tailandesa viva, com o Galo de Barcelos como símbolo do bairro — sim, o galo português! Ainda hoje há famílias que fazem o khanom farang kudi chin, um bolo inspirado em doces portugueses, transmitido de geração em geração. Dizem que só três famílias continuam a fazê-lo na versão original. E há um museu — o Baan Kudichin Museum — que conta toda esta história.

Khanom farang kudi chin — bolo luso-tailandês
O khanom farang kudi chin: “o primeiro bolo da Tailândia”, de raiz portuguesa.

A embaixada mais antiga da Tailândia é a portuguesa

A Embaixada de Portugal em Banguecoque, inaugurada em 1820 e instalada no edifício atual em 1860, é a missão diplomática mais antiga de uma nação europeia na Tailândia. Fica na Captain Bush Lane, com vista para o rio Chao Phraya. Portugal nunca colonizou o Sião — e essa história de respeito mútuo, ao contrário de outras potências europeias, ajudou a manter a amizade até hoje.

Portões da legação portuguesa em Banguecoque (1918)
Portões da legação portuguesa em Banguecoque, 1918.

Os doces tailandeses que vêm de Portugal

Uma das figuras mais fascinantes desta história é Maria Guyomar de Pinha, mulher de ascendência portuguesa, japonesa e bengali, criada no Sião. Foi ela quem criou vários dos doces tailandeses mais famosos, adaptando receitas portuguesas:

  • Foi Thong (fios dourados) — vem dos fios de ovos;
  • Thong Yip — inspirado nas trouxas das caldas;
  • Thong Yot e Thong Ek — das ovos moles;
  • Luk Chup — uma versão do maçapão.
Foi Thong — fios de ovos tailandeses
Foi Thong: os “fios dourados” da Tailândia, descendentes diretos dos nossos fios de ovos.

Cinco dos nove doces auspiciosos da Tailândia são atribuídos à influência portuguesa. É uma herança doce que poucos conhecem.

Doces tailandeses de influência portuguesa
Doces tailandeses de influência portuguesa, servidos em Banguecoque.

As malaguetas, a papaia e os frutos que ficaram

Foi através dos portugueses que chegaram ao Sião, por via do comércio, alimentos vindos das Américas que hoje são parte da identidade tailandesa:

  • as malaguetas — impossível imaginar a cozinha tailandesa sem elas;
  • a papaia — essencial no famoso som tam;
  • o ananás, a mandioca e a batata-doce;
  • e os girassóis.
Malaguetas tailandesas
Malaguetas: chegámos nós a trazê-las — e a Tailândia não volta atrás.
Som tam — salada de papaia tailandesa
O som tam, a famosa salada de papaia — sem papaia (e sem malagueta) não seria o mesmo.

As palavras tailandesas que vêm do português

O português foi durante séculos a língua franca entre europeus e siameses. Por isso, o tailandês está cheio de palavras que nos parecem familiares:

  • Sabu — sabão;
  • Pang — pão;
  • Kalamae — caramelo;
  • Rian — real, a moeda;
  • Khrissatang — cristão.

E há mais: a palavra tailandesa para “estrangeiro ocidental” é farang — e não é por acaso. Muitos investigadores ligam-na aos primeiros portugueses que os siameses conheceram.

Arquitetura sino-portuguesa em Phuket

No sul, Phuket tem um centro histórico inteiro em estilo sino-português, construído no início do século XX. As fachadas coloridas com toldos e varandas são um dos cartões-postais mais fotografados da ilha — e uma herança direta desta relação.

Arquitetura sino-portuguesa em Phuket
O centro histórico de Phuket, em estilo sino-português.

Lisboa também tem um pedaço da Tailândia

Em 2012, por ocasião dos 500 anos das relações luso-tailandesas, o governo tailandês ofereceu um pavilhão tailandês ao Jardim Vasco da Gama, em Belém, Lisboa. Foi inaugurado pela Princesa Sirindhorn. É das formas mais bonitas de fechar o círculo: um pedaço do Sião em Lisboa.

Uma amizade que continua

Hoje, os portugueses podem viajar para a Tailândia sem visto por 60 dias, e milhares de portugueses visitam o país todos os anos. Mas a parte mais bonita desta história é outra: é que, sem darmos por isso, levamos e trazemos a Tailândia e Portugal em coisas tão simples como um doce, uma malagueta ou uma palavra.

Se ficaste curioso como eu, gostava de te mostrar o que vou escolhendo por lá. Espreita a minha seleção.

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